O Oscar 2010 e a derrocada de Avatar

Raul Ramos

O Oscar da noite de ontem representou muito mais do que a derrocada do super indicado Avatar do diretor James Cameron, que ficou apenas com prêmios técnicos como Melhor Efeitos Especiais e uma questionável estatueta por melhor fotografia (já que um filme com sua maioria feita em computação gráfica e US$ 500 milhões de orçamento, tem por obrigação ter iluminação, ângulos e locações perfeitas), representou a volta de Hollywood para um cinema um pouco menos comercial e mais direcionado para críticas política/sociais.

Enquanto Avatar decepcionou a grande mídia e críticos que fizeram imenso lobby pelo longa; Guerra ao Terror, da diretora Kathryn Bigelow, levou para casa seis estatuetas. O fato interessante é que o filme e a diretora tiveram de buscar patrocínio fora dos Estados Unidos, já que nenhuma instituição ou órgão quiseram investir seu dinheiro em algo relacionado a guerra, resultado? Kathryn conseguiu investidores franceses e produziu Guerra ao Terror. Ainda assim em muitos países, como no Brasil, o filme não chegou sequer ao cinema.



Coração Louco, de Scott Cooper, deu a Jeff Bridges o prêmio de Melhor Ator. Scott Cooper é um grande admirador da contracultura dos anos 70, tanto é que Coração Louco foi produzido completamente nesse molde; elenco reduzido, locações mais baratas e orçamento baixo, porém com um conteúdo estupendo, sem ligar para bilheteria ou críticas de revistas estadounidenses. Scott Cooper produziu um autêntico Peter Bogdanovich dessa década.

E nosso querido Quentin Tarantino? Não levou como melhor diretor e melhor roteiro (ambos ficaram, não menos merecidamente, com Guerra ao Terror), porém dirigiu Christoph Waltz como o coronel nazista Hans Landa em Bastardos Inglórios, Christoph ficou com o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. E como referência podemos citar que Kathryn Bigelow foi uma autêntica Beatrix Kiddo, atropelando o ex marido James Cameron na disputa entre Guerra ao Terror e Avatar.
Quentin também entregou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro para o argentino O Segredo dos Seus Olhos, que venceu o favorito A Fita Branca.

Em resumo, Bastardos Inglórios, Coração Louco e Guerra ao Terror ficaram com as maiores premiações do Oscar, e juntos, não chegam a 10% do valor total da produção de Avatar. Ou seja, tudo indica que daqui para frente poderemos ter filmes mais elaborados, com roteiros inteligentes, direção mais humana e um enfoque mais direcionado para o cotidiano, como faziam Scorsese, Polanski, Bogdanovich, Allen e sua turma na década de 70, e não apenas super produções ao estilo sessão da tarde/enlatados anos 90, que buscam apenas recordes de bilheteria e vendas de brinquedos ou produtos tercerizados.

8 comentários:

Ana Chimeca disse...

Primeiro: AVATAR decididamente foi o sucesso do ano, sucesso de bilheteria, de público e etc.
Agora, obvio que ele não seria o maior premiado da noite porque quem faz a premiação são atores e diretores e AVATAR é totalmente trabalhado em computação gráfica e eles poderiam correr riscos de perder seus lugares. Guerra ao Terror ganhou por ser um filme que se trata de politica, algo politicamente correto, a luta contra o terrorismo, tentando fazer os americanos virarem heroís(como sempre). AVATAR foi trabalhado por mais de 10 anos e não é um filme totalmente comercial, tem que saber interpreta-lo. AVATAR ainda sai com três prêmios e ao contrario do que foi dito, todos merecidos enquanto uns...Enfim...o cinema também age movido a politica.
O Oscar 2010 não foi nem um pouco sensato com AVATAR.

Manuela Pizjuan - RJ disse...

Certamente o Oscar melhorou muito seu conceito se formos olhar para os outros anos.
Avatar não passa de um filme feito em computação gráfica (deveria até concorrer como animação), com enredo médio e atuações fracas. Ganhou os prêmios que tinha que ganhar, nada a mais nada a menos.
Guerra ao Terror, ao contrário do que o outro comentário da Ana Chimeca disse, é justamente o oposto do politicamente correto (Avatar é muito mais politicamente/ecologicamente correto), trata a guerra como um vício que os americanos tem, e de como isso afeta a vida das pessoas que vão para uma guerra sem lógica. Uma grande crítica a todo o sistema norte-americano de guerras durante décadas. Bastardos Inglórios deveriam ganahr como melhor roteiro original, Tarantino trabalhou cada frase perfeitamente como sempre. Tirando pequenos detalhes achei justo, como não era há muitos anos. E Avatar tem o que queria, recorde de bilheteria e a mesma historinha de sempre quando se trata de Cameron, que ganhou em 1992 o "prêmio" de pior roteiro por Rambo.

Beijos e parabéns pelo texto!

Manu.

Raul Ramos disse...

Ana e Manu, obrigado por participarem com seus comentários.
Pela ordem, Ana, Avatar foi trabalhado com computação gráfica porém em todas as cenas eram utilizados atores, o processo 3D veio depois, com incrementeções técnicas da equipe de Cameron. E claro que Avatar tem suas qualidades, porém ainda não acredito que mereceria levar como melhor filme, pois tem algumas deficiências como o roteiro fraco e falta de ligação entre muitas cenas. É um estéticamente quase perfeito, porém a Academia não pode avaliar somente a beleza de um longa.

Manu, sim, Guerra ao Terror é uma crítica imensa a 'fábrica de guerras' estadounidense, a cena do soldado tendo de intervir manualmente nas bombas caseiras é algo perturbador, Kathryn soube muito bem trabalhar cada detalhe, mesmo com a resistência existente dentro do país contra o filme e um elenco desconhecido. Conseguiu provar mais uma vez que cinema não se faz apenas com dinheiro e influência, mas sim com determinação, sensibilidade e dedicação por cada segundo do filme ou frase do roteiro.

Raul Ramos
Café com Ribeirão

Leonildo Trombela Junior disse...

"Não da pra entender uma pessoa que defende que o filme é bom porque faz dinheiro. Para essas pessoas Mc Donalds e Coca Cola deve ser o ápice da culinária."

A frase não é minha mas fica a dica.

Carne disse...

Vi AVATAR e não vi Guerra ao Terror. Mas acho exagero todo esse Alarde de "um marco no cinema".

Vivemos numa onda estranha de tendências ainda mais estranhas. Ex: filmes de vampiros, sem sangue [exemplo simples].

Me parece que hoje os filmes têm de ser rentável pra serem bons... e, se o filme esbanja, transborda, esgota um certo recurso, que é: muito dinheiro e muito efeito especiai é pra compenssar alguma falha[que todos ja sabemos: roteiro fraco, e a mensagem do filme é bem bobinha - um norte americano salvando o mundo].

Não acho que AVATAR seja um marco - não acho que o OSCAR sirva de parametro, OSCAR é Status, assim como o Grammy... mas enfim..
`
prezo por filmes simples e de conteúdo. AVATAR conseguiu o que queria, atraiu gente, fez barulho, mas, no ano que vem, nessa mesma data, o filme estará em uma prateleira, sendo locado por 4 reais. Assim é a grande industria, essas coisas comerciais são assim mesmo. Produzidas, consumidas e expelidas de alguma maneira.

Já bons filmes ficam na memória...

acho q é isso

Lullaby D. disse...

"AVATAR é totalmente trabalhado em computação gráfica e eles poderiam correr riscos de perder seus lugares."
se é assim, porque essa porcaria concorreu como melhor filme e não como melhor animação?
e atores e diretores perdendo espaço pra efeitos especiais? no dia que for dessa maneira, pode declarar que o mundo acabou, pois acabaria o talento ou qualquer outra coisa pra dar prioridade a efeitos visuais que só impressionam pessoas sem capacidade de crítica, que acha o máximo o que olha mas pouco se importa com o conteúdo que os invade.
ainda acredito em um mundo cinematográfico onde talento e bom roteiro são mais importantes.

Lullaby D. disse...

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Fernada Rodriguez disse...

Ahhh... eu gostei de AVATAR!! =(
Não gostei desse OSCAR hauhau Mas fiquei curiosa pra ver esse de Guerra que levou..
Parabéns pela matéria, grde Raul! Vou mandar esse link pra excelentíssima Lao! huahau