Especial Quentin Tarantino


Bastardos Inglórios
2009


O vilão perfeito

Leonildo Trombela Junior

O Coronel Hans Landa fez a lição de casa. Não falhou em um único quesito da cartilha “The Top 100 Things I'd Do If I Ever Became An Evil Overlord” (As 100 coisas que farei quando me tornar um Senhor do Mal). Dotado de astúcia, cultura e retórica irretocáveis, o “caçador de judeus” (como ficou conhecido pela patota do Terceiro Reich de Tarantino) é tranquilamente o melhor vilão que já vi no cinema.

Imagine um vilão assustadoramente calmo e racional, que não cai na sedutora lábia feminina – a Shosanna enganaria fácil 99% da população masculina hétero. Pense em alguém não se deixa levar por delírios típicos de pequenos poderes (distúrbio comum em síndicos e afins). Um vilão com flexibilidade moral suficiente para negociar a queda de um império com seu maior inimigo em troca de benefícios.

Adicione à essa infalibilidade alguém que fale fluentemente alemão, inglês, francês e italiano. Esse último idioma por sinal, quando proliferado, fora responsável pela cena mais engraçada do filme. O creme do creme.

Se alguém achava que depois do Coringa de Heath Ledger não haveria mais vilões mais interessantes que a própria história em si, Hans Landa foi a cereja do bolo que merecidamente rendeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes ao austríaco Christoph Waltz.


O herói politicamente incorreto

Raul Ramos

“Meu nome é tenente Aldo Reine; seremos largados na França vestidos como civis, só temos de fazer uma coisa: matar nazistas”.

Brad Pitt alcançou como tenente Aldo, sob o comando de Tarantino, um nível de sarcasmo, realismo e objetividade talvez só podendo ser comparado com Vincent Vega, interpretado por John Travolta em Pulp Fiction.

Durante todo o filme Aldo é, contrario ao Herr Hans Landa, mais instintivo do que racional, mesmo sendo integrante do serviço de inteligência das forças aliadas. Reunindo seu grupo de oito bastardos, seu único objetivo é torturar e espalhar o terror dentro das trincheiras do terceiro Reich.

Tarantino parece convencer o público criando “heróis” que atuam mais pela emoção do que pela razão, tanto Beatrix Kiddo (Kill Bill) como o tenente Aldo lutam apenas pela questão de se vingarem violentamente de seus inimigos, sem mais alguma razão por trás disso. Tarantino é direto e simples, não utiliza de motivos secundários, que poderiam existir, mas seria um excesso em ambos os filmes.

Em sua apresentação, Aldo define bem o seu papel em todo o filme: “Membros do Partido Socialista conquistaram a Europa com mortes, torturas, intimidação e terror. E é exatamente isso que faremos com eles. Seremos cruéis com os alemães. E através dessa crueldade eles saberão quem somos. Os alemães não conseguirão nem imaginar a crueldade que seus irmãos sofrem em nossas mãos; sob a sola de nossas botas; e na ponta de nossas facas.

Os alemães ficarão cansados de nós, os alemães falarão de nós, os alemães terão medo de nós, os nazistas não têm compaixão e precisam ser destruídos! Todo homem sob meu comando me deve 100 escalpos nazistas, e eu quero meus escalpos!”


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