O Café entrevistou a premiada diretora e roteirista Anna Muylaert. Anna é formada em Cinema pela ECA-USP, em seu primeiro longa,
Durval Discos (2005), recebeu o prêmio de Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Direção no 30º Festival de Cinema de Gramado, um dos festivais mais prestigiados da América Latina.
Anna também já dirigiu curta-metragens e videoclipes de Chico César, além de participar da criação dos programas
Mundo Da Lua (1991, TV Cultura) e
Castelo RaTimBum (1995, TV Cultura); foi co-roteirista da série
Filhos do Carnaval (HBO) e do filme
O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias, as duas produções dirigidas por Cão Hambúrguer.
Hoje Anna desenvolve o projeto do seu próximo longa-metragem
Que Horas Ela Volta?, e conversou com o Café sobre as diferenças de trabalhar em TV e Cinema, e como enxerga o atual momento cinematográfico nacional e internacional.
Café Com Ribeirão: Qual a principal diferença entre trabalhar na produção de um programa de TV e em um longa-metragem?
Anna Muylaert: Na TV sempre tem estrutura por trás, seja grande ou pequena. No cinema você tem que inventar a sua estrutura. Na parte artística também é bem diferente. TV você sempre tem briefings fechados, tem um cliente, no cinema tem mais liberdade e também mais ambição artística.
Café: Prefere escrever roteiros ou dirigir filmes?
Anna: Gosto de alternar por que dirigir é cansativo e escrever também. Então descanso de uma coisa fazendo a outra, por que são de naturezas muito diferentes. Quando escrevo estou em casa, próxima dos meus filhos, mas frito o cérebro – dirigir você vai pra rua, é uma coisa mais física, envolve coragem quase física.
Café: Em
Durval Discos percebemos que além do conflito de gerações, existe toda uma ligação com a cena mais tropicalista de são Paulo; você já possuía essa ligação?
Anna: Sim, eu sempre gostei da fase da MPB, desde criança.
Café: E a experiência de filmar planos do Durval Discos em steadycam, já existia esse interesse quando pensou no longa?
Anna: Sim, desde a ECA sempre gostei de planos sequências e aquela abertura existiu desde o primeiro roteiro.
Café: Após a premiação do Festival de Gramado ficou mais fácil conseguir financiar algum projeto seu?
Anna: Talvez um pouco, mas é sempre difícil. O que conta no mundo do cinema é a carreira como um todo.
Café: Acredita que o cinema está caminhando para um rumo mais comercial do que artístico? Ou ainda podemos encontrar diretores que tenham espaço e independência como Scorsese, Tarantino, Coppola, Reitman, Burton, e outros exemplos que conseguiram driblar a indústria como a Nouvelle Vague, Nova Hollywood ou o Cinema Novo de Glauber Rocha.
Anna: Como disse Glauber, o caminho são todos os caminhos. Acho que existe os dois tipos e sempre vai existir. Um tipo de pessoa consome uma coisa e outro tipo outra.
Café: Em quais diretores você aposta como grandes expoentes no cenário do cinema nacional?
Anna: Gosto muito do cinema do Nordeste, Ceará e Pernambuco. Gosto do Karim Ainouz, Claudio Assis, Lirio Ferreira, Kleber Mendonça Filho, Marcelo Gomes. Acho que eles fazem um cinema consistente e de alto nivel. Em são paulo tem uma dupla que vai fazer seu primeiro longa agora, Juliana Rojas e Marco Dutra que são muito talentosos.
Café: Quais eram seus modelos de diretores/roteiristas quando ingressou na ECA-USP?
Anna: A gente gostava do cinema de arte, Glauber, Godard, Wim Wenders...
Café: A vitória de uma diretora no Oscar pode ser a médio/longo prazo um sinal positivo dentro de uma indústria historicamente 'machista'?
Anna: Talvez. Vamos ver. Acho que compete mais a própria competência , talento e foco das diretoras.